16 de Julho de 2009

 

Credo














Annika von Hausswolff


O deus em que creio

É surdo
E ouve as minhas rezas no buio.

O deus em que creio
Não está registrado nos orgãos públicos,
É vítima de insultos
Antes de depois dos cultos.

É um deus sem pátria nem exército,
Um deus das vagabundas e dos ébrios.
E esse poema é seu Credo.

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11 de Julho de 2009

 

Em dias como hoje






















Cao Weihong


Em dias como hoje
Eu não saio de casa.
Eu não canto a canção,
A canção que preparava.

Eu não conto mais os minutos
Que eram a nossa distância.
O meu tempo é curto
Mas continua a dança.

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9 de Julho de 2009

 

A propósito do Messias





















Kiril Chelushkin



Ainda que soubesse
As dores da alegria
E o fim de nossa espécie.

Ainda que pergunte
A Deus e todo o mudo
Que grita e que padece.

E torto sou ainda
A voz que se espanta
E trama a tua vinda.

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7 de Julho de 2009

 

Diante de ti

















Lalla Essaydi



O absoluto é incompleto,
Na verdade não sei ao certo.

Sei que há um infinito em teu riso
E sei que te quero
Acima de tudo,
Quando me calo
E quando te escuto
.

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6 de Julho de 2009

 

Quero teu corpo















Alyssa Monks
Bem vindo a

Quero teu corpo,

Teu corpo enxuto.

Quero-te toda
Em uma hora,

Em um minuto.


Por toda a noite
Ou dez segundos.


Teu riso doce,

Olhos profundos.

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30 de Junho de 2009

 

Nunca ganhei o suficiente
















Tierney Gearon



Nunca ganhei o suficiente
Para a conta do ofício,
Para juntar todos os ossos
E os oferecer para o bispo.

Nunca fui eu mesmo
E muito menos o que disse.
Fui o mais inocente,
O mais perfeito dos patifes.

Andei entre os piores tipos
E não me arrependi disto.
Confessei e pequei e confessei
E sempre completei o círculo.

Sei que agora estou no tablado
E só para a platéia existo.
Todo mal está no passado
E quem quiser que passe por isso.

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21 de Junho de 2009

 

Transiente II














Hieronymus Bosch
A tentação de Santo Antonio (detalhe)


Dai-me Senhor um prece
Para esquecer-me de ti.
Já fiz muitas promessas

E já fizeram por mim.


Já fui a muitas missas

E as promessas cumpri.

Dai-me Senhor um prece

Para esquecer-me de ti.

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20 de Junho de 2009

 

Saussure













Man Ray Primazia da matéria sobre o pensamento



A tua fenda rósea
Na flor de meu dia,
Aberta é prosa
E depois poesia.

Ao abrir-se
Ela narra o mundo
E fechada
O gozo é tudo.

Ela é, mais nada.

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16 de Junho de 2009

 

Andante e allegro ma non troppo














Sabrina Mezzaqui
Ricamo su mantello indossato

Ver-te-ei nua
Depois da lua.

Ver-te-ei andar
Sob o luar.

Veja, já te vi
E te perdi.

I see you soon
After the moon.

I see you right

Under this light.


I saw you go
Long time ago.

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14 de Junho de 2009

 

Quadra dos tempos idos












Masato Seto


A princesa, branca e feliz,
Arruma suas melenas.
Eu não sei em que país,
Ela vive em mim apenas.

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2 de Junho de 2009

 

A canção das canções que cantei




















Vee Speers


Não cantei mais por falta de espaço,
Não cantei mais por fata de adeus,
Cansei-me da dor e do cansaço
E não comento a ausência de Deus.
Não canto mais por excesso de rimas,
Algumas bem pobres, outras ladinas.
Não te cantei porque isto não faço,
Negaste na noite o teu corpo lasso.

Não cantei mais por falta de tempo,
Não cantei mais por falta de tinta.
Não capturo o riso e o momento
E não comento, a dor é só minha.
Não cantei mais por falta de escrúpulos,
Alguns bem safados, outros ocultos.
Não mais observo os teus belos traços,
Negaste-me tudo e tudo é passado.

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31 de Maio de 2009

 

Cresce sob a praça um riso escasso














Oan Kim


Cresce sob a praça um riso escasso
Na manhã acrabunhada e pura.
Nas frestas sem luar, nos alfarrábios,
Incensos sem broquéis, literaturas.

Cansado de esperar, em vão procuro
A glória de saber, a vil beleza
Das noites sem luar, o lago impuro
Onde boiam desejos e certezas.

Há muito a esquecer, o pão dormente
Na mesa sem toalha, a ceia fria,
Casais no frio da noite indecente.

O pouco que restou, a alegria,
Os dias de teu sol e riso ardente,
A hora que ora segue, tão vazia.

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30 de Maio de 2009

 

Perdas




















Istvan Balogh



E mais apenas,

Se houve.

O começo,

O teu olhar perdido

No calor da espera,

No frio do silêncio.


Tudo passa,

Eu passo.

Ficam as palavras,

A despedida

E meu abraço.

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29 de Maio de 2009

 

A oeste de ti















Marie-Paule Nègre
Jazzman

Alguns minutos de tua ausência
Passam mais do que tudo,
Passam mais do que tu pensas.

O tempo dissolve-se sem retorno,
Sem o perfume de tua presença
E com a chuva que cai no outono
.

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28 de Maio de 2009

 

Há um fim


















Véronique Ellena


Há um fim
Em cada canção,
Mas eu finjo
Que não.

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27 de Maio de 2009

 

Hegeliana I
















Arcangelo Ianelli

Sou o sujeito
E sou a substância.
Por conta disso
Perdi minha infância.

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21 de Maio de 2009

 

Transiente I

















Elina Brotherus


Quase estrelas
Pulsam no cosmos.

Um novo ritmo

E nada somos.

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19 de Maio de 2009

 

Luz do poente


















Nobuyoshi Araki


O sol revela
Teu corpo para o mar.
As ondas em tua pele,
O brilho de teu olhar.

A lua brilha
No lago de teu mirar.
Hora profunda e breve,
Suave luz do luar.

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15 de Maio de 2009

 

Quero














Joe Pflieger


Quero ser feliz ao menos um dia.
Que seja hoje
E não estou na Bahia.

Serei feliz até o fim da tarde:
No amor que se apaga,
No amor que arde.

Serei feliz e saberei depois
Pois foi um dia
E um dia foi.

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14 de Maio de 2009

 

Este poema é intenso















Koji Wakamatsu


Este poema é intenso
Como tudo o que penso,

Como teu corpo entreaberto,

Quando penetro,

Quando me alegro.


No teu corpo penso

Como tudo que é intenso.

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30 de Abril de 2009

 

Passos na areia















Leandro Erlich
Piscina


Em quase tudo

Há um pouco de tempo.
Na beira do mar
quando me contento.

Na beira de tudo
Há o eco do silêncio.

Eu me quedo mudo

E o resto é setembro.

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29 de Abril de 2009

 

E depois










Carmela Garcia

E depois de todo

Este barulho:

O silêncio.


Depois de todo gozo,

De todo contentamento.

Depois de toda posse

E de toda perda,

Depois da dor imensa:

O silêncio.

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16 de Abril de 2009

 

Esta coisa
















Yue MinJun
O Massacre em Chios



Esta coisa
Não está em mim.
Quando percebo
Um sonho feliz de saudade
Os hotentotes de Andrõmeda
E as naves se desfazem em colunas.

De qualquer modo
Caminho por uma via solitária.
Os prédios se erguem sem vestígio
E eu não tenho nada a ver com isso.

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3 de Abril de 2009

 

Quando o sexo é sujo





















Jin Soo Kim
Estratos


Quando o sexo é sujo,

Abuso.

Quando o sexo é limpo,

Brinco.

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29 de Março de 2009

 

Diante do inquisidor















Zhang Huan


Nada tenho a dizer
E por isso nada digo.

Eu não disse tudo

E o todo não persigo.

Não venha com conversa,

Com seu discurso incisivo.

Tua luz está nas trevas

E nas trevas não prossigo.

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22 de Março de 2009

 

Querida















Renato Mangolin
- Bodas de Sangue
(Amir Haddad)

Querida

Esta carta é definitiva. Outras foram definitivas, mas essa é mais definitiva do que as outras. Vou parar com essa montanha russa literária porque de qualquer forma as cartas não são mais escritas e nem sei se tu ainda reconheces a minha caligrafia.
Nosso tempo nunca se mediu em cartas, desde os ventos uivantes em Itaparica, o riso de descoberta na via Veneto, o beijo no palácio de Veneza, o teu braço helicóptero na praia deserta e as discussões sobre o Orsay e o Louvre enquanto subíamos a colina de Montmartre.
Nosso filho nasceu num tempo distante e não estávamos atentos, ele não nasceu. Teu ventre era tão macio, era uma aventura acariciá-lo e encontrar a rosa de tua volúpia. Tanta paixão esgotada em nós, o nosso tempo era um rio que desaguava em si mesmo.
Sei que parti e tua dor foi tão forte que tu te apartaste de todos e foste recolher-te em tua pequena cidade. Sei que não respondi teus apelos para explicar-me mas naquela hora já não havia explicação.
Sei que estou só e queria de ti a palavra que te neguei.
Sei que não lerás esta carta, a rasgarás em um gesto definitivo.

Teu

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17 de Março de 2009

 

Um vazio oco



















Picasso
Mulher chorando



Um vazio oco,
Um vazio mais oco que ontem.

Uma noite insone
Medida no tempo do homem,
Perdida na perda enorme.

Vejo o sol da manhã,
Vejo a lua que some.

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10 de Março de 2009

 

A cidade passa




















Shoji Ueda
Papai, Mamãe e Crianças



A cidade passa
Como um filme.


E nós passamos,
Aparecemos

E Alguém nos suprime.

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9 de Março de 2009

 

A propósito (dois movimentos)
















John Tenniel Gato de Cheshire
Ilustração de "Alice no País das Maravilhas"




O espanto do tempo

Estampado nas fotos

Que não se movem:

Éramos tão novos!


O gato não é o de Alice,

Mas o riso é de Steinkirch.



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5 de Março de 2009

 

Moira













Andreas Gursky
Bolsa de Mercadorias de Chicago II


Isso que o tempo
Não se cansa.
Esse meu cansaço,
Noites sem vento,
Maria Bonita e o cangaço.

Essa canção sem apelo,
Onde está meu zelo
Se aceito o acaso
E sei que não escapo
?

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2 de Março de 2009

 

A rosa de ninguém














Bill Viola
O Cruzamento


A rosa de ninguém,
Não fui eu que plantei,
Eu nem sei.

Rosa no meio de nada,
Sol sem cor, mar sem vagas.

Rosa do vazio que me esmaga.
Rosa que é rosa e foi rosa.

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26 de Fevereiro de 2009

 

Signo de tua ausência




















Candida Höfer
Cantina de Espelhos, Hamburgo III



Signo de tua ausência,
O pêndulo sem movimento,
A lua no topo do templo,
O rato que rói e pensa.

Oceanos frios e sem vento,
Rios de homens sem crença.
Crença a que não me entrego
E em tudo a tua ausência

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13 de Fevereiro de 2009

 

Artesão





















Richard Misrach
Tridente



Uma sombra no espelho,
Uma pilastra caída no canto.
Um movimento,
Um sopro em suspenso.
Na minha lida
O pó e o encanto.

Não mais aprendo
E só adivinho.
No tempo estendo
Um tapete e respiro.

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12 de Fevereiro de 2009

 

Soneto insone













Yona Friedman Vila Espacial

Extremo das eras que me transforma
Em um profeta de quinta categoria.
Procelas presas sob o fogo das horas
Invertem o conceito que mal concebia.

Assim entre pretextos e dramas,
Entre perfeitos vãos de utopias
Sigo o que resta de meu carma
E não satisfeito torno a brasa fria.

Anjos sem trombetas e iluminados
Perdem-se nos pesadelos da Bahia
E trazem o espanto, o não e o passado.

Era, eu sei que foi o que nela ia
E direi será a quina do quadrado
E o círculo símile da grega magia

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11 de Fevereiro de 2009

 

Aritmética














Christopher Miner
Intervenção Divina



O teu destino está contado:

Um, dois, três, quatro.

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10 de Fevereiro de 2009

 

Feitura














Folheto de propaganda - Shun-kin
Teatro Público de Setagaya



Não é mais domingo


E todas as preces

Se voltam para mim.

Como tu sabes, minto

E no mentir fenesce

O começo de meu fim.

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6 de Fevereiro de 2009

 

Poente





















Gerard Hemsworth
Jardim Urbano



Mantenho a minha presença
Nos teus olhos que não me vêem.
Não quero que tu me esqueças,
E te esqueças do que não sei.

Nos mares há tantas lendas
E há tanto por fazer.
Por mais que ainda aprenda
No teu corpo há mais prazer.

Passaram os rios e os anos,
No passado ficou meu ser.
Esse ser de tardo engano
Que na tarde espera você.

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27 de Janeiro de 2009

 

Aparição

















Mary Heilmann
Para ser alguém


O meu anjo
Surge das cinzas.
Tem cabelos negros
E um olhar de artista.

O meu anjo é claro
E a noite escura.
Nada nua no lago
E espera a lua.

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22 de Janeiro de 2009

 

Pregão

















Tala Madani
Queda



Quem procurar uma estrela
Não pode perder a ocasião, a primeira.
Estrelas de segunda mão,

Com pouco uso.

Que estão no céu há tempos,

Desde o tempo de Confúcio.


Elas brilham na sua mão,

Estão gastas, o preço é bom.

Ficam bem em sua casa,
Iluminam o tempo que passa,
O tempo para o sim,

O tempo para o não.

Há um tempo para tudo,

Não perca tempo, o preço é bom.

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21 de Janeiro de 2009

 

Cântico para Kant













Anish Kapoor Tarantantara


Um coisa em si
É uma coisa que não vi.
No paraíso das coisas
Há um acúmulo,
Há um limite.

Não creio em qualquer coisa
Mas uma coisa qualquer
É um convite.

Tenho o hábito
De crer nas coisas:
Nas coisas em que creio
E nas coisas que existem.

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19 de Janeiro de 2009

 

Maria do Céu





















Ellen Babcock



- Acredita em Deus?
- Não.
- No diabo?
- Não.
- Acredita em algo?
- Sim
- ?
- Que há um céu em tudo.
- E os crimes perversos?
- O céu está nublado.
- E o choro dos desvalidos?
- Há uma chuva fina.
- E quando o sol explodir e engolir a terra?
- É o sétimo céu.

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16 de Janeiro de 2009

 

Vésperas


















Imi Knoebel Grande cruz dupla


Na galáxia não surge um corpo novo
E teu corpo é uma antonomásia.
No teu olhar nem uma supernova,
Tu és meu luar e minha ressaca.

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15 de Janeiro de 2009

 

Despertar

















Nobuyoshi Araki
Sem título



Antes pelo contrário
Ou o mesmo de sempre.

O que sou fui quando vário

Sob a sombra do ausente.


O princípio é nulo e raro

E assim a conseqüência.

A consciência escorre no ralo

Enquanto o fim da inocência
.

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13 de Janeiro de 2009

 

O passeio de Kafka na parede





















Sarah Cain
Peça branca



A contradição é inerente ao processo
E por isso mesmo eu confesso.

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6 de Janeiro de 2009

 

Púlpito















Sheng Qi
Praça do Povo


Assim de terceira,
Não mais o que se quebra,
O que de procura não mais de pressa.
Assim fevereiro
E os pulos parcos, a moça honesta.

A invasão dos avaros
Não perturbou a alma inquieta,
Não penetrou nos escritórios
Nem alterou a hora da sesta.

Os fenômenos modernos
Modernizam a nossa era:
As palavras mais ocas
Semeiam o que te espera.

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5 de Janeiro de 2009

 

O mal




















Dan Perjovschi
O que aconteceu conosco?



O mal encontra-se nas nuvens,

Por isso as sobrevôo de avião.
O mal encontra-se no asfalto,
Por isso escondo-me no morro.

O mal está nas notícias,
Por isso não leio as revistas.
O mal está por toda a parte
Mas perdi o bilhete para Marte.

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22 de Dezembro de 2008

 

Tormenta













Do-Ho Suh Causa e Efeito



Não me inclua nessa categoria,
Os inocentes perderam o ritmo.

Já não pereço como se possível,
Antes da queda a renascença
E todos os Michelangelos,
Como se a nave intensa,
Como o crime que compensa.

As famílias sagradas
Não bebem o vinho indicado.

Para ser sincero, o mais triste
É a canção que fica
Enquanto só queria
O que ainda existe.

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10 de Dezembro de 2008

 

A nau de Ulisses
















Franco Vaccari



O que controlamos
Ou o que nos controla?
É um vazio no peito
Na torrente da hora.

E assim nos consolamos
Ou alguém nos consola
Em um porto insatisfeito
Onde um barco se demora.

O consolo dos barcos idos
Numa canção sem volta.
Preso no mastro maciço
Ouço a sereia remota.

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9 de Dezembro de 2008

 

Abandonem os barcos
















Hirsch Perlman

Apparatum Armorum Ineptum #10



Abandonem os barcos
E abasteçam as cantinas.
Esqueçam a dor dos bardos
E aniquilem as rimas.

Reparto-me em pedaços
E sequencio a minha sina.
Dou um nó no espaço
E o tempo dobra a esquina.

O tempo dobra e escorre
E se duplica no menino
E o menino não dorme.

E no sonho o meu destino
Por mais que reze e obre,
A obra se abre e rimos.

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3 de Dezembro de 2008

 

Novembro de 1966





No lugar dos pombos meus pés encharcados, nada de café ou de lembrança dos turcos de pele clara. As gôndolas deslocavam-se por toda a cidade, o naufrágio do romantismo, uma tarde sem "piazza". Minhas ruelas do acaso agora meandros de um estuário, ainda sou pequeno e nada sei desse cidade, cidade onde lerei uma perda num jornal, sei que daqui a pouco começarão as perdas que me acompanharão até a definitiva, o mergulho do qual ninguém retornou.

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27 de Novembro de 2008

 

Ave Maria

















Rosemarie Trockel
Pílula para dormir



Escondeu o silêncio nas gavetas, a tarde ainda não tinha alcançado as cinco horas. Um olhar perdido, o marcador ao lado do livro findo, o celular imóvel. Ainda que aquele braço se acercasse, ainda que todas as noites fossem cerzidas numa cortina sem palco, ainda assim as gavetas, a mesa limpa, as cabeças imersas nas baias.

As reuniões persistiam, intermináveis, retardadas e inúteis, conversas paralelas, celulares atendidos. Sem o tique-taque do passado, apenas o ruído dos teclados, o murmúrio das conversas sobre os artefatos, temos que controlar as demandas ainda que não nos controlemos.

Temos que controlar a fúria que não sabemos que há em nós, educar o inimigo que nos persegue quando dormimos, temos que pagar as dívidas em parcelas negociadas pela eternidade, nossa eternidade que é finita, não podemos conceber o infinito, mas as mulheres concebem novas criaturas e é tão difícil conceber um texto.

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26 de Novembro de 2008

 

O Messias em Júpiter



















Joana Vasconcelos
A Noiva



Podem recolher as pedras
Que agora estou a caminho.
Folhas ao redor de prédio,
Rosas na coroa de espinhos.

Podem vasculhar meu tédio
E encontrar os manuscritos.
Tudo que gira é incerto
E os cálculos não são conclusivos.

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21 de Novembro de 2008

 

Abstração















Mike Kelley


A pequena olha o mar
Sobre a pedra sem areia.
Numa praia devagar
O teu corpo se bronzeia.

No negrume não há mar,
Ela espera a lua cheia.
Nos teus olhos há luar,
E teu olhar ébrio meneia.

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10 de Novembro de 2008

 

Clown

















Elizabeth Murray Rabanete


O gesto ao meio dia
Não padece das considerações da véspera.

Ante o espetáculo do discurso
Não carece de ser pouco
E não ousa ser muito.

É a flor do silêncio
E seu último fruto.


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7 de Novembro de 2008

 

Resíduo


















Miró
Bailarino

O que restou do tempo
E de teu olhar vadio?
Folhas levadas ao vento
Caem e flutuam no rio.

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26 de Outubro de 2008

 

A lira de Orfeu















Matisse


Reinventei o acaso
E transformei-o em ritmo.
Depois olhei o relógio:
Era hora de irmos.

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20 de Outubro de 2008

 

A obsessão quântica














Mimmo Rotella Gracejo moderno


E que venha o momento,
Mas não seja já.

Fluxo que não suspendo,
Não posso parar o pêndulo
Que não há.

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2 de Outubro de 2008

 

Para Quintana

















Alfonso Ossorio


Não leio mais poesia,
Só leio os classificados.
Vendem-se casas, alugam-se moças,
Tudo se compra, a fé e o pecado.

Não leio mais filosofia,
Só os livros com recados
Que garantem que um bom riso
Vale mais que o bom Heráclito.

Não leio mais, nem de dia,
Nem Neruda, nem Lobato,
Minha mente está vazia
E meus olhos estão gastos.

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16 de Setembro de 2008

 

Oeste, chuva


















Diane Arbus
Gêmeas idênticas (Cathleen e Colleen)




Há muito tempo espero esta notícia.
As novas são as mesmas
E as velhas, uma chama que não se atiça.

Apalpo os corredores
E lembro-me das missas.
O padre não se coloca de costas
E fala em vernáculo
E fala para quem acredita.

Há muito tempo espero esta notícia,
Há muito tempo espero
E ela chegou e ela partiu
A minha crença na partida.

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12 de Setembro de 2008

 

Costa azul


















Vick Muniz


Rosa de França
Sob a luz de maio.
Corpo de fêmea
Sob o meu, um raio.

A rosa branca
Na tua rosa morena.
O sol nos enlouquece
E mudo nos querena.

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25 de Agosto de 2008

 

Veias














Jim Dine Cinco pincéis de pintura


Não encontro
O cão de louça
Entre as tâmaras e as tangerinas.

Ouço o cão e louvo
As rameiras
E as crianças perdidas.

Rezo pelos tolos
E pelas veias
De minha América ladina.

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11 de Agosto de 2008

 

A Vida de Galileu












Candice Breitz Um herói da classe trabalhadora(um retrato de John Lennon)


O herói é infeliz
Como o país
Que dele precisa.

Um país sem heróis
Vive melhor
Mas é cinza.

Há um paraíso
Em todo texto lírico
E há lirismo no inferno
E um inferno em tudo isso.
O herói sabe disso.

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7 de Agosto de 2008

 

O cassino de Pascal










Richard Long







Sucumbo ao ritmo rotundo
De teu soluço.
Nele creio e tudo posso.

Minha fé é sem atos
E só nos atos eu aposto.

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6 de Agosto de 2008

 

O arco e a diva











Ghada Amer






O costume de observar as teias
Que se espalham por meu quarto,
A curva sinuosa de teu corpo,
As ondas de frio e as águas de março.

Tudo se revela aos poucos
E eu procuro um disfarce.
O traço diáfano de teu rosto,
Eu não domino a tua arte.

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4 de Agosto de 2008

 

Castelo













Lin Tian Miao Vendo a Sombra #30



Há algo correto
Em tuas decisões precipitadas.
Há algo no movimento,
Em tudo há algo em nada.

O morro foi decomposto
E abriu-se uma esplanada.
O morro foi-se há tempo
Mas o samba não acaba.

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1 de Agosto de 2008

 

Ludwig e Woodrow









Tim Noble e Sue Webster









Fique atento aos sinais do mercado,
Assassinaram o Francisco Fernando.
O mundo é totalidade dos fatos
E não das coisas, por enquanto.

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31 de Julho de 2008

 

Da brevidade e do silêncio
















Joseph Beuys


Da brevidade e do silêncio,
E dos teus olhos
E da passagem do tempo.

Da luz à beira do abismo
Ao som que sobra no ritmo.
Da paixão que há no abraço,
No beijo e no cansaço.

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30 de Julho de 2008

 

Flores são isso















Louise Bourgeois O Presbitério




Flores são isso,
Uma dose de abismo
Ou um riso
Assim mesmo,
Uma estrutura sem vínculo.

Ontem tive um sonho
Sem vôos e precipícios,
Eu nunca mais te tive
E eram rosas e lírios.

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29 de Julho de 2008

 

Vi o futuro













Eugenio Dittborn Pintura de correio aéreo no. 97

Vi o futuro
E tu não estavas,
Eu vi.

A vida é dura
Em teu olhar
Triste e puro.

Teu corpo quero
E procuro.

Infindo inverno
Porque vi o futuro.

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28 de Julho de 2008

 

Some o gentil vento














Zhang Peili Prazer Incerto



Some o gentil vento,
Não mais o teu arfar
Tão terno e violento.

Sobe a lua cheia
No mar de dezembro.
O balanço de teus braços
Como ondas ainda lembro.

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20 de Julho de 2008

 

Última quadra














Fausto Melotti





Tenho um canto cheio de conchas,
Contudo o mar está em mim.
De tantas noites perdi a conta.
E a minha conta chega ao fim.

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18 de Julho de 2008

 

Encontrei o Almeida na esquina
















Neal Tait



Encontrei o Almeida na esquina,
Entrei na noite última canina.
Subi a ladeira da Memória
E desci entre corvos,
Conchas e retóricas.


A lua seguia
O seu rito masculino.
A lua é alemã
E o Almeida não sabe disso,
E se soubesse
Não largaria o seu vício.

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15 de Julho de 2008

 

Se eu disse













Cornelius Quabeck Desordem Crítica




Se eu disse
Que te amo
Não pense que foi engano.


Não pense
Que tu perdeste
Aqueles anos.


Sei que te perdi
E sei que te amo.

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14 de Julho de 2008

 

Sombra sobre a tarde moura

















André Butzer -Sem título

Sombra sobre a tarde moura,
O palácio de desejos e laranjas,
De cimitarras e algoritmos.

Sombra sobre as sombras
Onde rimos,
O teu corpo claro
E tranqüilo.

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11 de Julho de 2008

 

Esta é a canção de setembro



















Tseng Kwong Chi



Esta é a canção de setembro
Que era para ser escrita
Em abril .

Mas há um motivo,
O atraso,
Ela foi escrita no Brasil.

No Brasil
Há tempo prá tudo,
Mas a falta de tempo
É assunto.

Perdemos horas
A reclamar
Do tempo
Que jogamos fora.

Mas como bom poeta
Sou falso e fingido.
Essa falsa canção de setembro
Foi escrita na data correta.

É nosso hábito a pressa
E o desprezo ao estudo.
Poesia pobre e desonesta
Espera um país, um futuro.

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10 de Julho de 2008

 

Glauber




















Simon Starling Instalação




A terra branca
E o sol a pino.
O mar e as veredas
No olhar de um menino.

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9 de Julho de 2008

 

Noturno I


















Inka Essenhigh

Há um silêncio
E há uma estrada.
Há um abraço
No corpo no nada.

Há uma lua
E um mar esquecido.
Há, sei que houve
E poderia ter sido.

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8 de Julho de 2008

 

Estes quadris mouros



















Dana Schutz Mona

Estes quadris mouros
De Sevilha e de Espanha,
Esta fúria levante
De Sicília e de Dante.

Manhãs de Veneza,
De Turner e de beleza.
De Málaga e de Granada,
Angola incendiada.

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7 de Julho de 2008

 

Os dias passados a limpo














James Wellin
Estufa



Alguns não foram tão lindos,

Outros bens tristes, sozinhos.
Agora navego a teu lado,
Os dias passados a limpo.

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4 de Julho de 2008

 

A luz ilumina
















Anri Sala - Instalação


A luz ilumina
As meninas.


Que cuidam da noite, tranqüilas

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30 de Junho de 2008

 

Por tudo que foi teu corpo













Lee Ufan Silêncio


Por tudo que foi teu corpo,
Nossas noites, nossos dias.
Horas de prazer e cansaço,
Horas tão velhas, horas vadias.

Sombra do que fui em pedaços,
De perder-me no cerro frio.
Onde eu perdi os meus passos?
Onde separei o certo do fugidio?

Tua ausência brilha agora
Na sombra, na luz que alivia,
Na cachaça que não consola.

Entro na barca sem alegria,
Nela os homens e a fria hora
Da dor da fuga e da elegia.

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26 de Junho de 2008

 

Segue a chuva


















Chantal Akerman Retrato no espelho

Segue a chuva
Na manhã profunda.
O ritmo não te esqueço,
Do dia, do começo.
Das rimas
A se repetir
Vadias,
Quando
Com todo o corpo
Sorrias.

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24 de Junho de 2008

 

Ouço o tempo



















Wenda Gu

Ouço o tempo,
Passo as máquinas,
Sombra do que
Foi aquilo.

Digo a ele
Que se afaste
Desta rua
E dos trilhos.

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23 de Junho de 2008

 

O teu riso



















Kathryn Frund Sabedoria e Transcendência





O teu riso

Tão raro,
O teu abraço.

Teu olhar
Tão puro.

Você não mais,
O mar escuro.

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20 de Junho de 2008

 

Epicuro



















Christian Burchard Cesta Branca


Vivo a vida apenas
No instante seguinte.
Creio que me ultrapassam
Corpos sem limite.

As galáxias persistem
Nas minhas veias
E na beira do oceano
Uma brisa me incendeia.

Não construo mais discursos
Nem edifico idéias.
A sombra de um eunuco
Pousa sobre a aletéia

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19 de Junho de 2008

 

Rauschenberg



















Tony Magar Dia da lembrança


O silêncio é algo
Que na harmonia não enxergo.
Tudo em mim sobra
Exceto o excesso.

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18 de Junho de 2008

 

Um animal em mim se cala



















Michael Eastman Interior verde

Um animal em mim se cala,
Eu me esfolo e não vou até fim.
Um segundo me consome e é a hora,
A hora é absoluta e ri de mim.

Tomo Lisofórmio com gim tônica
E subo em um palco em Paris.
Resumo toda a minha obra
E nela morro sóbrio e feliz.

Há uma loira fatal na sala
Que quer caviar e come Bis
E corre nua e me encara.

Há um ogro preso na horta,
Corcunda desprovido de narlz
E tanto faz, se é que importa.

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13 de Junho de 2008

 

As meninas do meu tempo











Dennis Wojtkiewicz

Meu tempo,
As meninas do meu tempo.

Tantas, meu Deus, como são belos
Sorrisos e olhos e corpos e risos
Tão belos.

Ontem à noite
Contei estrelas
De incontáveis eras,
Contei para as meninas
Como o tempo as faz mais belas.

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5 de Junho de 2008

 

Bonança













Melissa Hutton Parece chuva




Meu coração bate nas pedras

E um navio segue sem velas.
Revela o mar o teu cabelo
E ondula tal teu corpo inteiro.

O vento amaina, as velas sobem.
Meu coração não te comove.
Nem o navio, nem as procelas,
O mar enorme, o sol, estrelas.

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29 de Maio de 2008

 

Balada da noite passada



















Paula Rego
- "Engole a Maçã envenenada"



Uma noite sem poemas,

Sem Esparta e sem Atenas.

Uma noite no mar sem a lua

Que foi minha e que foi tua.

Numa ilha e numa escuna:

Uma noite me perturba.

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28 de Maio de 2008

 

Eu não creio no céu




















Wayne Thiebaud -
Antigo caça-níques


Tradução do poema "Ich glaub nicht an den Himmel" de Heinrich Heine(1797-1856)


Eu não creio no céu
Do qual o pregador fala;
Eu só creio em teus olhos,
Luz de minha alma.

Eu não creio no Senhor
De quem o pregador fala;
Eu só creio em teu coração
E nenhum outro deus me cala.

Eu não creio no Maligno,
No inferno e esconjuros;
Eu só creio em teus olhos
E em teu coração duro.

Ich glaub nicht an den Himmel,
Wovon das Pfäfflein spricht;
Ich glaub nur an dein Auge,
Das ist mein Himmelslicht.

Ich glaub nicht an den Herrgott,
Wovon das Pfäfflein spricht;
Ich glaub nur an dein Herze,
'nen andern Gott hab ich nicht.

Ich glaub nicht an den Bösen,
An Höll und Höllenschmerz;
Ich glaub nur an dein Auge,
Und an dein böses Herz.

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23 de Maio de 2008

 

Orestes
















Tianbing Li
Dois mundos diferentes



Abre-se um abismo

No rastro de teu riso,
Nos passos sem escada
E na queda sem ritmo.

Um abismo desumano
Sem paisagem, sem escala
Onde nunca estamos
Mas está na palavra.

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21 de Maio de 2008

 

Sobras



















Katsura Funakoshi
Chuva de Verão



Um monumento

À estupidez do pêndulo,

Os raciocínios lentos,
As máquinas suicidas.


Não tenho medo,

A minha angústia

É o movimento

E uma rosa oscila.


Um oceano,

Ao fundo um templo.

Quem sabe eu mesmo
Ou algo findam.

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20 de Maio de 2008

 

A fé e a pílula















Ai Weiwei e Fake Studio

Obra em Progresso - Fonte de Luz - 2007


Há um espaço
Onde o som e o sentido.
Há e houve e
Poderia ter sido.

Há um amuleto
E um crédulo de plantão.
Há tantas coisas
E tantas coisas são.

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19 de Maio de 2008

 

Testamento














Markus Schinwald


Apenas faço digressões bacantes
Sobre o nada,
Um indício aparente
De que ainda restam alguns minutos.

Na cadeira um avental amarelo
Se não do tempo,
Do meu gosto pelos objetos encontrados nos passeios públicos.

Minha América não foi descoberta
E minha Europa é uma devassa no opaco das veredas.

O instante é absoluto,
Sempre escrevo essa frase quando não tenho assunto
E o poema nasce quebrado,
Sujo como um cão espancado pelos hunos.

Ainda bem que os poemas nascem,
Que as mulheres pecam
Muito mais que os padres
E não contei nem metade da missa.

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16 de Maio de 2008

 

Das Leben















Rauschenberg
Sem títuto, 1955



Finito, fugaz e fátuo
O existir é um espetáculo.

Um circo sem platéia,
Uma platéia sem palco
E não há falta de palhaços.

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9 de Maio de 2008

 

O discurso do método













Mark Dion
Gaveta do Armário Brockton


Não meço o poema
Por qualquer motivo.
Antes o crio perverso
E totalmente sem limites.

Pode ser uma ameaça
Ou pode ser um convite.
A razão é que me mata
E consola o que vive.

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8 de Maio de 2008

 

Crepúsculo



















Nikki S. Lee



Saiba que o mar se eleva
E a noite antiga
Não encontrou o seu caminho

Saiba que não há mal nas trevas
E o futuro sorve
O perene, o incerto e o bom vinho.

Os ventos vêm do norte
E aquecem as trêmulas,
As trêmulas mãos que eram minhas.

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30 de Abril de 2008

 

Não cansei-me do silêncio



















Yves Klein
Esponja Azul



Não cansei-me do silêncio
Porque nele havia ritmo.
Nela pulsava tua ausência,
O quanto calamos, o quanto rimos.

O mar se mistura ao vento,
As barcos virados e aos meninos.
No teu corpo o terno movimento
De ondas vorazes, teus olhos brilham.

Há um oceano em toda perda
E é frio o beijo do precipício,
Negro abismo sem correnteza.

Há um sorriso preso no tempo
No cais sem amarras, cais impreciso.
Sem tua fala, tua cor, teu alento.

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29 de Abril de 2008

 

A filosofia da fossa



















George Condo
A Hard Days Night





O limite é o caso
Como não é o ser da rosa
Que nega o botão.

E se não fosse
Não traria o que trago:
Um pergunta sobre o ser,
O meu tempo dilatado
E o mais triste violão.

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